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Sobre o emprego do hífen
domingo, 09 julho 2017

Sobre o emprego do hífen

Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
(Para uma fixação da nomenclatura do Vocabulário e do Dicionário da Academia)

 

Sobre o emprego do hífen

Por motivos de clareza gráfica, o que permitirá evitar possíveis riscos de ambiguidade, o emprego do hífen é recomendado nos compostos com elementos de ligação quando os seus elementos, com a sua acentuação própria, não conservam, considerados isoladamente, a sua significação, ou seja, o sentido da unidade não se deduz a partir dos elementos que a formam.

Observação 1.ª Como as locuções não formam uma unidade de sentido conotativo, os seus elementos não devem ser unidos por hífen, seja qual for a categoria gramatical a que pertençam. Assim, escreve-se, por exemplo, base de dados (locução nominal), cor de açafrão (locução adjetiva), à parte, à vontade (locução adverbial), a fim de, apesar de (locução prepositiva), cada um, ele próprio (locução pronominal), ao passo que, contanto que (locução conjuncional), uma vez que essas combinações vocabulares não são verdadeiros compostos. Quando, porém, as locuções se tornam unidades fonéticas, devem ser escritas numa só palavra: acerca, afinal, apesar, debaixo, decerto, defronte, deveras, etc. Só, por conseguinte, as combinações vocabulares que formem verdadeiras unidades semânticas e sejam, ipso facto, verdadeiros compostos é que exigem, em rigor, o emprego do hífen, como água-de-colónia, braço-de-ferro, entra-e-sai, pé-de-meia.

Observação 2.ª Se numa locução existir um elemento que já tenha hífen, este será conservado: a trouxe-mouxe.

Observação 3.ª Os nomes próprios que entram na formação de locuções são grafados com maiúscula inicial, como em cabeça do Império, olho da Providência; no caso de serem compostos com hífen, passam a minúscula: folha-de-flandres, maçã-de-adão.

Observação 4.ª As expressões com valor nominal, isto é, formas em que a soma dos elementos forma um sentido único, como faz-de-conta e maria‑vai‑com‑as‑outras, devem ser grafadas com hífen.

Observação 5.ª No interior de certos compostos, para assinalar a elisão do e da preposição de, em combinação com os nomes, emprega-se o apóstrofo: borda-d’água, cão‑d’água, copo-d’água, estrela-d’alva, galinha-d’água, mãe-d’água, marca-d’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco, pau-d’óleo, etc.

Observação 6.ª As expressões latinas nunca são hifenizadas: ab initio, ab ovo, carpe diem, habeas corpus, in octavo.

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Emprega-se o hífen nas palavras com formas reduzidas, como afro-, euro-, luso- e outras análogas, que referem mais de uma configuração geográfica: afro-brasileiro, euro-asiático, sino-japonês. Estes compostos transmitem sempre o hífen aos seus derivados.

Não se emprega o hífen quando estes elementos são elementos de composição, como em francófono, lusófono, ou quando há uma relação de subordinação entre os elementos, como em eurodeputado, lusodescendente, sinologia.

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Os vocábulos mandachuva, paraquedas e paraquedista passaram a escrever-se aglutinadamente por se ter perdido a noção de composição. Os restantes compostos com a forma verbal manda- e pára- continuam a ser separados por hífen conforme a tradição lexicográfica: manda-lua, pára‑choques, pára-brisas, pára-raios.

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No que diz respeito a palavras formadas por ântero, êxtero, ínfero, íntero, póstero e súpero, recomendam-se as formas com hífen e acento gráfico. Embora esses elementos prefixais sejam próclises de adjetivos, não perdem a sua individualidade morfológica, e, por isso, devem unir-se por hífen.

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Emprega-se o hífen nos vocábulos onomatopaicos formados por elementos repetidos, como em au-au, bau-bau, lenga-lenga, tique-taque, truz-truz, zás-trás.

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Em muitos compostos o advérbio bem aparece aglutinado ao segundo elemento, quer este tenha ou não vida à parte quando o significado dos termos é alterado, como em bendito, benfazejo, benfeitor, benquerença.

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Não se emprega o hífen nas formações com os prefixos pre- e re-, mesmo nos encontros de vogais iguais ou quando o segundo elemento é iniciado por h, como em preencher (pre‑+encher), reescrita (re-+escrita), reabilitar (re-+habilitar).

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Emprega-se o hífen em palavras formadas com os prefixos ab-, ad-, ob-, sob- e sub- quando o segundo elemento começa por um r, para manter o valor fonético deste, ou seja, como vibrante velar [R], e não como vibrante alveolar [r], como em abraço. Exemplos: ab-rogar, ad-renal, ob­reptício, sob-roda, sub-raça.

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Emprega-se o hífen nas formações com o prefixo sub-, quando combinado com elemento iniciado por b, como em sub-bibliotecário.

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Emprega-se o hífen nas formações em que o segundo elemento é um estrangeirismo, um nome próprio, uma sigla ou um acrónimo, como em anti-doping, anti-URSS.

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Para evitar indecisão interpretativa e manter identificação de forma, recomenda-se o emprego do hífen: co-réu (*corréu), co-utente (*coutente).

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Emprega-se o hífen nas palavas formadas pelo prefixo pan- e em que o segundo elemento começa por vogal, h, m ou n (cf. Base XVI, 1.º, c)), como em pan-africano, pan‑helénico, pan-mágico, pan-negritude. De contrário, aglutina-se ao elemento imediato: pangermanismo, panléxico, pansofia, etc. Estão previstas ainda as seguintes alterações ortográficas do prefixo pan-: passa a pam- diante de b ou p, como em pambalcânico, pambrasileiro, pamplegia, pampsiquismo, uma vez que a aglutinação ortográfica implica uma leitura indesejada ou violação das restrições contextuais (*np) da ortografia do português; reduz‑se a pa- quando o elemento seguinte, sem vida à parte, começa por m ou n (etimologicamente, nm > mm > m e nn > n), como em pamastite, paniquismo).

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Nos elementos de natureza substantiva, provenientes do grego ou latim, em que não se empregava hífen e que, com a aplicação das novas regras ortográficas, passam a ser hifenizados quando há encontros de vogais iguais, recomenda-se o uso preferencial das grafias com elisão da vogal do radical que coincide com a do elemento imediato, como em radiopaco. Não se admitem, porém, as formas com acento no primeiro elemento.

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Emprega-se hífen em palavras formadas pelos elementos não- e quase-, por se considerar que os elementos possuem uma função prefixal quando se unem a bases substantivas, adjetivas ou verbais.

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