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Publicar em português
sexta, 26 maio 2017

Publicar em português

É incisivo o texto do MANIFESTO EM DEFESA DO MULTILINGUISMO CIENTÍFICO promovido por professores universitários do Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Espanha e Portugal (aqui dinamizado por José d’Encarnação). Sintetizo os principais argumentos: não pode confundir-se uma língua franca de vocabulário escasso, para uso coloquial e serviços, que é hoje o inglês, com a língua da Ciência. Dentro desta, não é equiparável a mestria linguística necessária às Ciências Naturais e Técnicas com a que é indispensável às Humanidades e Ciências Sociais, nas quais «os matizes do pensamento apenas podem evidenciar-se mediante um amplo conhecimento das palavras e dos seus sinónimos» e de «toda a estrutura gramatical e conceptual». «O empenho dos administradores da ciência europeia em reduzirem toda a comunicação científica a uma só língua está, pois, a provocar uma rápida deterioração das Ciências Sociais e Humanas». E há também consequências nefastas no que respeita à credibilidade dos investigadores porque «no nosso mundo, associa-se, automaticamente, a qualidade de expressão à capacidade de pensamento». Por fim, chamam a atenção para a crescente qualidade das traduções automáticas, o que torna «menos necessário obrigar alguém a exprimir-se numa língua diferente da sua».

Conto um episódio pessoal para infletir a argumentação. Tendo assistido à minha prova de doutoramento, disse-me alguém da área das Engenharias: «Agora percebi a importância do que fazem nas Letras! Se não forem vocês, mais ninguém o faz. Na minha área, é indiferente que a investigação se faça aqui ou noutro qualquer país. A vossa é que devia ser prioritária nos apoios». Pois é. Mas mandam-nos escrever em inglês. Para quem trabalhamos, afinal? É assim que cumprimos a nossa missão de serviço à comunidade, a tão exigida (e bem) «transferência de conhecimentos»? É assim que fornecemos os instrumentos de autocompreensão, as ferramentas que permitem intervir para melhorar, exercer a cidadania? A quem forma e interessa prioritariamente a História de Portugal, a sua Literatura, a sua Geografia, as suas Artes e Cultura, a compreensão da sua vida social? Aos portugueses, como é óbvio, e aos leitores dos países lusófonos que connosco partilham parte das suas raízes. E como pode pedir-se a um filósofo que pense e escreva num idioma que não é o seu? É escandaloso valorizar mais uma investigação pelo simples facto de estar publicada em inglês.

Desgosta-me que portugueses se menorizem de tal forma que aceitem publicar em inglês, no seu próprio país, investigações sobre realidades portuguesas. O que é diferente de proferir uma conferência ou publicar noutra língua em países estrangeiros (já o fiz em inglês, castelhano, francês e italiano). Só que esse tipo de trabalhos é em geral distinto, como direi. Nós exprimimo-nos numa língua neolatina, riquíssima (para quem a sabe usar), que é o terceiro idioma ocidental mais falado no mundo, ocupando a mesma posição entre as línguas de pesquisa na Internet. Apesar disso, subvaloriza-se o português face ao francês ou ao alemão. O que se faz, precisamente, porque, embora mais falado, se menospreza enquanto língua de Ciência.

Ser internacionalizado – ou melhor, ser cosmopolita, como diríamos se o nosso léxico não andasse desvirtuado por tecnocratas – é estar aberto às culturas e ciências que se praticam noutros países e dialogar com elas. Não é, por contrassenso nos seus próprios termos, ser monolingue. O monolinguismo revela e acentua o provincianismo, a tacanhez de perspetivas – o que se aplica a todos, incluindo os nativos de língua inglesa. Porque é na língua-mãe que conseguimos exprimir melhor assuntos complexos e subtilezas de pensamento, os académicos ocidentais da área das Humanidades e Ciências Sociais dignos desse nome têm de ser capazes de ler os colegas que escrevem em línguas românicas.

Contudo, são hoje vulgares as obras inglesas e americanas sobre diferentes aspetos da história da Europa cujos autores só leram o que está produzido em inglês. O que de melhor e mais profundo se escreveu no continente escapou-lhes completamente. Um historiador dos impérios ibéricos incapaz de ler português e castelhano é uma fraude. Não aprendeu nem dialogou com os textos dos investigadores desses países e não leu os documentos da época, bastando isto para que a sua obra não possa ser classificada como historiográfica.

Os estrangeiros incapazes de ler português não são especialistas da nossa cultura e o que lhes interessa é aceder a boas sínteses de investigação séria e cuidadosamente contextualizada. Para esses, sim, o inglês é o veículo. Mas esse tipo de obra não é nem pode ser o nosso trabalho central. Apresentar em inglês, logo de raiz, investigação de ponta em Humanidades é inútil e, sobretudo, devastador para a Ciência e para a nossa identidade.

Texto publicado na Rua Larga e divulgado pelo Professor José d'Encarnação

Comentários (2)

  • GLEICE

    GLEICE

    28 maio 2017 às 18:12 |
    Excelente artigo
  • José d'Encarnação

    José d'Encarnação

    29 maio 2017 às 23:08 |
    Bem hajas, mui querida Ana, pela divulgação. Nessa luta estamos - por um Português melhor e mais respeitado! Um abraço!

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