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Em português, se faz favor
terça, 01 dezembro 2015

Em português, se faz favor

«É oficialíssimo: o verbo «pôr» morreu mesmo. Depois de alguns anos em coma, morreu esta madrugada. Vai estar esta noite em câmara-ardente na capela do Público. À família enlutada (antepor, compor, dispor, impor, opor, propor, transpor, etc.) apresentamos as nossas condolências. Como todos os defuntos, era uma excelente pessoa. Segundo o testemunho emocionado de alguns colegas, como o Dr. Meter e o Eng.º Colocar, nos últimos anos o Sr. Pôr sentia-se muito combalido e maltratado.»
in «Em português, se faz favor», pp. 83-84

É assim que Helder Guégués, autor do livro «Em português, se faz favor», retrata o falecimento do verbo “pôr”, esquecido, maltratado, assassinado por todos nós. "Pôr as mãos no fogo por alguém" ou "meter o nariz onde não é chamado" passou de moda. Não porque as expressões tenham deixado de ser usadas, mas porque os falantes votaram ao abandono verbos como "pôr" ou "meter". Hoje tudo se "coloca", até dúvidas e queixas! Pretensiosismo linguístico? Pedantismo? Uma pretensão disparatada que provoca um empobrecimento do nosso vocabulário. Não entende, caro leitor, onde quero chegar? Consulte as páginas 83-84 da obra em apreço e, seguramente, entenderá o que pretendo transmitir. Este é apenas um exemplo dos maus-tratos que diariamente infligimos à nossa estimada língua. Infelizmente, não são casos únicos e a maldição nem é de agora.

Já no século XVII, Francisco Rodrigues Lobo, na obra «Corte na Aldeia», escreve: «Tenho raiva, sabendo que a língua portuguesa não é manca nem aleijada, ver que a fazem andar em muletas latinas os que a haviam de tratar melhor.» Fernando Venâncio, no prefácio à obra de Guégués, reforça: «Parece uma maldição, e talvez mesmo o seja. O nosso uso diário do idioma aparece polvilhado de descuidos, de impropriedades, desvios à norma, rotundas agramaticalidades.” (p. 17).

A língua altera-se por si só, dado que se encontra em constante renovação, mas também se altera porque alguém a altera e é aqui que surgem os ‘atropelos’ na nossa língua. Podemos falar da dicotomia ‘certo’ (é todo uso linguístico que segue as normas da língua-padrão) e ‘errado’ (é todo uso linguístico que não segue as normas impostas pela gramática). Não há consenso entre os sujeitos falantes e até mesmo entre gramáticos e linguistas, porque, por um lado, há os puristas e os conservadores da língua que não admitem qualquer mudança; por outro lado, há os que tudo admitem, com a crença de que o povo é quem manda na língua. Ao efetuar uma análise de desvios na língua, conclui-se que muitos deles, outrora condenados pelos puristas inflexíveis, acabaram por ser aceites e legitimados. Uma elevada frequência de uso de uma determinada palavra pode provocar alterações na própria gramática, ainda que essa forma não seja entendida como a mais correta do ponto de vista vernáculo. A norma resulta do equilíbrio entre o bem falar e escrever registado como modelo e das práticas linguísticas adotadas pela comunidade de falantes.
Muitas das mudanças da língua começam por ser consideradas erros e, à medida que se vão impondo, acabam por ser aceites e por entrar na norma. Desta forma, e apesar de a norma ter de ser necessariamente tida em conta, observa-se que o uso também faz lei e qualquer erro pode vir a tornar-se uma forma adotada. Helder Guégués, no seu blogue Linguagista, publicando textos diários, mantém-se atento à evolução do idioma e, com o seu olhar crítico, analisa e observa as alterações que o mesmo vai sofrendo, apontando, muitas vezes, palavras novas que merecem entrada nos nossos dicionários.

Ainda que esses erros se situem nos mais diversos planos da língua, é possível identificar alguns tipos que costumam ocorrer com mais frequência. Os tópicos onde se encontram mais desvios à norma-padrão encontram-se no livro «Em português, se faz favor». Partindo sempre de casos reais, com abonações, uma mais-valia da obra, tanto da literatura como da comunicação social, o autor aponta-nos: (1) Alguns dos erros mais comuns (*ciclo vicioso, em vez de círculo vicioso; *concerteza, em vez de com certeza); (2) Algumas confusões mais comuns (a moral (ética) / o moral (estado de espírito); de encontro a (choque) / ao encontro de (acordo); (3) Género (o caso, por exemplo, da mudança de género da palavra diabetes, que é ditada pelo uso); (4) Numerais (dicas sobre a numeração romana ou os números ordinais); (5) Expressões (estamos sempre a tempo de aprender que o quanto antes é expressão errada, não use esse "espúrio o", alerta-nos o autor) ; (6) Verbos (passando em revista muitas questões relacionadas com a regência verbal); (7) Símbolos, siglas, acrónimos; (8) Modismos e mau uso (preste muita atenção porque derivado de não é sinónimo de devido a); (9) Plural e o seu mau uso (talvez se surpreenda com o plural de igualzinho); (10) Ortografia (quantas vezes se usa *dignatário em vez de dignitário?); (11) Pontuação e sinais auxiliares da escrita; (12) Pronúncia (sabia que se diz e escreve cônjuge, e não *cônjugue?).

Falamos de uma obra em que o tão polémico Acordo Ortográfico de 1990 não é aplicado. Uma obra respeitada também por aqueles que o aplicam, como é o meu caso. É o que menos me preocupa. Sei que ambos defendemos uma reflexão conjunta sobre a língua, que reúna estudiosos e investigadores, onde impere o bom senso. Na verdade, os pontos que merecem inteiramente a nossa reflexão e uma profunda investigação para futuros esclarecimentos são casos que nada têm que ver com as mudanças ortográficas implicadas no novo acordo mas antes pontos que carecem de análise para uma verdadeira e integral reforma ortográfica.

Vale a pena recordar o hino de Francisco Rodrigues Lobo, em louvor da língua portuguesa, pois «é branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver, acomodada às matérias mais importantes da prática e escritura. Para falar é engraçada, com um modo senhoril; para cantar é suave, com um certo sentimento que favorece a música; para pregar é substanciosa, com uma gravidade que autoriza as razões e as sentenças; para escrever cartas nem tem infinita cópia que dane, nem brevidade estéril que a limite; para histórias nem é tão florida que se derrame, nem tão seca que busque o favor das alheias…. e, para que diga tudo, só um mal tem, e é que, pelo pouco que lhe querem seus naturais, a trazem mais remendada que capa de pedinte».

Há quatro séculos a língua portuguesa recebeu esta homenagem literária. Francisco Lobo, pela personagem Lívio, o Doutor, no livro «Corte na Aldeia», legou-nos esta excelente síntese da brandura, da graça, da suavidade, da sonoridade, da eloquência, da nossa língua, entristecendo-se, porém, ao surpreendê-la maltratada pelos “seus naturais”. Este louvor, que já tem séculos, ganha, nos tempos que correm, nova voz e é o mote deste guia fundamental, «Em português, se faz favor”.

Qual o melhor conselho que se pode dar a quem quer escrever e falar melhor? Leia e consulte obras como esta e não se esqueça de um bom dicionário, de uma gramática ou de um prontuário. E, para terminar, faço minhas as próprias palavras do Helder, numa entrevista recente: «Ler muito, mas com critério. Privilegiar os muitos e bons autores portugueses, e não apenas os contemporâneos. E praticar: aprende-se a escrever escrevendo, como se aprende a nadar nadando.»

«Arrumar o mundo» é, talvez, uma tarefa infindável, mas este é um primeiro passo. Estou consigo, Helder, a bem da língua portuguesa.

Ana Salgado
Gestora do Pórtico da Língua Portuguesa

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